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Um amigo meu, médico cubano do hospital da Praia, na Ilha
de Santiago, e que fala um pouco de criolo caboverdiano, contou-me
a seguinte história:
Chegou um doente da zona de Pedra Badejo, no interior da ilha,
e perguntei-lhe:
- Qual é o seu problema?
Ao que ele respondeu:
- Ka ta panha Praia, Sr. doutor.
Eu não entendi nada, por que aquilo quer dizer: "Eu
não posso apanhar Praia". Aquilo não fazia sentido...
Será que ele estava maluco?
- Como? Apanhar Praia?
Atrás de nós ouvi as enfermeiras cochichando. Pedi
ao doente para aguardar e fui perguntar às enfermeiras o
que ele quis dizer.
Elas me explicaram:
- Sr. doutor, conhece estes pequenos rádios portáveis
que muitas pessoas, sobretudo no interior têm sempre consigo?
- Claro que conheço.
- Estes rádios não são de boa qualidade e a
antena quebra-se facilmente.
- OK. Mas isso não me explica o que é que ele está
aqui a fazer. Não sei concertar rádios e também
não entendo o que os problemas da antena têm a ver
com 'apanhar Praia'.
- Espera, Sr. doutor, por que é um pouco complicado: 'apanhar
Praia' significa apanhar a única emissora da ilha, que fica
no Pico de Santo Antónia, emitindo Rádio Praia. Quando
o rádio das pessoas está avariado, eles não
apanham Rádio Praia. Por isso o paciente diz: "ka ta
panha Praia".
- E então?, perguntei sem entender o que queria o doente
de mim.
- Sr. doutor, não entende? Este senhor tem um problema de
impotência.
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